A APDA nasce em 2016 — mas não nasce do nada. Muito antes, entre amizades de bancada e até entre rivais, houve quem tentasse juntar vozes em prol do adepto. No caso português, foram inicialmente os próprios grupos organizados quem tomou as rédeas dos protestos em torno da securitização das bancadas e, também, da crescente comercialização do futebol. Não por acaso. A partir dos anos 1990, enquanto diminuíam os números de espectadores nos estádios, as claques ganhavam uma importância acrescida na produção da atmosfera e do espetáculo das bancadas. Ao mesmo tempo, a violência no futebol, apesar de não acompanhar necessariamente a dimensão que o seu destaque mediático fazia supor, tornava-se um tema cada vez mais presente numa imprensa liberalizada e ávida de audiências. Para grupos frequentemente associados a esses episódios, defender a sua imagem pública era também uma forma de defender o seu lugar no futebol.
Havia ainda uma cultura de organização que facilitava a mobilização. Muitos dos dirigentes das claques eram jovens, estudantes ou recém-chegados ao mercado de trabalho, alguns com experiências associativas, universitárias ou políticas. Não era, por isso, estranho que soubessem navegar — e experimentar — diferentes formas de mobilização. Desde cedo surgiram tentativas de congregar esforços entre grupos, como as iniciativas de criação de uma “federação de claques” em 1989, 1993 e 1994, seguidas de reuniões e momentos de concertação durante a década de 1990. Desses encontros sairiam também várias ações conjuntas.
A defesa dos adeptos passava ainda pela palavra: pelas entrevistas e colunas na imprensa, mas sobretudo pelas fanzines, que conheceram um particular desenvolvimento durante os anos 1990. Nas bancadas, outras linguagens – palavras de ordem, banners e coreografias – permitiam tornar visíveis reivindicações que iam dos preços dos bilhetes à violência policial. Eram, muitas vezes, solidariedades contingentes e frágeis, mas revelavam já uma vontade de ultrapassar a escala de cada bancada.
É sobre estas experiências e redes, feitas de aproximações, tentativas e também de desacordos, que se vão construindo outras formas de intervenção. A defesa do adepto começa progressivamente a encontrar novos espaços de ação, do associativismo à intervenção junto dos decisores políticos, enquanto os contactos e redes europeias alargam as possibilidades de mobilização. Em 2016, a criação da APDA dá uma nova forma a essa vontade de organização. Mais tarde, a crescente utilização das ferramentas digitais e o mundo da internet haveriam de abrir novos caminhos, aproximando diferentes experiências e permitindo levar a defesa dos adeptos para outros espaços e tempos.
É também esta história, feita de continuidades e transformações, que o primeiro corte do documentário sobre os dez anos de trabalho da APDA procura recuperar. Exibido na última Assembleia-Geral da nossa Associação, o pequeno filme reúne fragmentos de diferentes memórias e experiências: das primeiras tentativas de organização às fanzines e plataformas online, do exemplo da experiência associativa da Associação de Adeptos Sportinguistas (AAS) ao nascimento da APDA em 2016, e daí à luta contra o cartão do adepto e aos desafios do presente.
Não é uma enciclopédia, nem pretende encerrar esta história. É antes um ponto de partida para juntar memórias diferentes e continuar a conversa sobre o que fomos – e sobre o que queremos ser.
Os associados terão em breve mais informações sobre o documentário e sobre os próximos passos deste projeto!