APDA, 10 anos de existência. Vale a pena festejar?
Estamos em 2026, num período onde se perspetivam imensas possibilidades quanto ao nosso futuro, talvez como nunca antes. Vivemos em Portugal, num país volátil, que se transforma a alta velocidade, muitas vezes sem tempo para olhar para trás e recordar os passos que permitiriam evitar os mesmos episódios negativos que se repetem de novo. Hoje, este é o nosso país. Um lugar feliz, mas ao mesmo tempo atrasado e diminuído por quem o conduz. Um país que vive o legado de Abril, onde apregoam a liberdade de expressão, mas onde parece não haver garantias de liberdade após a expressão. Esta não é apenas uma frase que invoca um ditador estrangeiro esquecido, esta é a imagem dos nossos estádios frequentados por muitos milhares de pessoas. Só que são “apenas” pessoas. Aqueles que nos governam acham que o que acontece num estádio não define o país, preferindo fechar os olhos para não verem o óbvio. Quem não pode fechar os olhos são as vítimas das torturas públicas que entre balas e bastonadas, veem as suas vidas destruídas perante a indiferença de toda uma sociedade.
Desde o 25 de abril de 1974 celebramos e recordamos anualmente que ganhámos voz. Porém, a verdade é que aquilo que foi conquistado tem-se vindo a perder lentamente desde então. Tanto na vida, enquanto cidadãos, como no futebol, enquanto associados, confiámos demais em quem nos gere, assistindo à perda gradual dos nossos direitos. Os governantes do país e os presidentes dos clubes que nos deviam representar, falham uma vez atrás de outra, esquecendo-se daquilo que realmente compõe tanto uma nação como um clube – as suas pessoas. Foi precisamente para romper com toda esta realidade que a APDA nasceu. Cansados de não sermos ouvidos, de sermos discriminados e de estarmos à mercê de gente que nos trata como meros criminosos, decidimos existir e lutar!
Em tons de reflexão, sejamos honestos com nós próprios. Para além da APDA quem mais esteve verdadeiramente ao lado dos adeptos e lutou incondicionalmente por eles? Ao longo desta década, entre todos os elementos que integraram os nossos órgãos sociais e as nossas equipas de trabalho, nunca em momento algum trabalhámos por dinheiro ou outro benefício pessoal. Foi sempre, única e exclusivamente, pela missão de construir e defender um espaço melhor dentro das nossas bancadas, mas também fora delas. Fomos o escudo para aqueles que não tinham defesa e a voz de quem não conseguia falar.
Ao olharmos para trás, é importante questionarmo-nos. Como seria a actualidade se o infame cartão do adepto ainda existisse? Como seria se não houvesse a nossa voz junto das instituições públicas de domínio desportivo ou nacional. Quem ia representar os adeptos nas várias discussões na comunicação social e principalmente no meio político quando exigem apenas mais repressão? Quem atravessava as nossas fronteiras para tentar garantir que os problemas dos adeptos portugueses fossem parte da agenda de trabalho dentro das organizações existente na Europa?
A resposta fica na vossa consciência. No mínimo podemos dizer que desde que a APDA existe os adeptos portugueses não estão tão sozinhos, sujeitos ao cliché de condenação habitual e transformados num mero cliente silencioso nas mãos de quem segura o poder que o desporto lhes confere.
Nestes 10 anos, provamos com a nossa união e bandeiras que vale a pena existir. Conseguimos juntar rivais à mesma mesa, conseguimos quebrar barreiras construídas por cores que nos diferenciam, tudo em prol dos valores e da defesa dos adeptos. Também entramos por portas que nunca se tinham aberto e, sem hesitação, continuamos independentes.
Por isso, lembrando a pergunta que inicia este texto, sim vale a pena! Este ano celebramos não apenas uma data, não apenas uma memória, mas 10 anos de pura resistência, de integridade e de recusa em ceder perante a mudança negativa que atenta contra o património material e imaterial do adepto.
A história continua…




