Os adeptos ficaram a saber ontem, de forma mais detalhada, parte daquilo que a FPF vinha a maturar desde o início do ano. Para os mais distraídos, a FPF, em reunião com o Governo e a Liga, apresentou nove medidas, sob o falso pretexto da “violência” no futebol. Mas o mantra de “trazer as famílias de volta” já não cola, até porque é uma total fabricação. Vimos dar nota daquilo que nos desagradou à saída da referida reunião.
A APDA nunca negou aquela que é uma realidade, a da violência, que desde sempre esteve presente em qualquer sociedade e em todos os seus segmentos, como de resto comprovam as notícias das detenções e suspensões de um elevado número de polícias bem recentemente. Mas o que muda com os tempos são as formas de encarar e abordar essa mesma violência. A forma como os governos decidem agir dirá muito sobre o tipo de comunidade que pretendem construir. Alarmante para a nossa associação é como o adepto, ano após ano, parece servir como rato de laboratório no qual se testam diferentes métodos de controlo e vigilância. Mais perigoso, são estas propostas surgirem, em primeiro lugar, sem terem em consideração a voz dos adeptos – bem real e mais consciente do que nunca – e, em segundo lugar, com uma cassete de um filme que já vimos não há muito tempo – e que não queremos voltar a ver!
Entre as peregrinas ideias da FPF, surge a hipótese da introdução de um ID Fun Card (não quereriam antes dizer um “Cartão do Adepto 2.0”?). Depois do amplo consenso, desde juristas, académicos e políticos aos intervenientes do próprio desporto, em torno da insensatez de uma fichagem e marginalização promovida pelo antigo Cartão do Adepto, questionamo-nos sobre as reais intenções desta proposta. Servirá para monetizar, transvestido de uma pretensa necessidade securitária, a paixão que todos nós sentimos por cada um dos nossos clubes? De resto, a revogação do “cartão” não foi um capricho nem mero acidente. Foi uma decisão tomada na Assembleia da República, depois de uma grande mobilização feita pelos adeptos, que, quanto a nós, apenas pecou por não ter riscado as ZCEAP de caminho. Goste-se ou não, trata-se da expressão da vontade soberana do povo português, materializada através dos seus representantes eleitos. Essa vontade não pode ser contornada por um jogo de palavras que mascaram uma ideia ultrapassada. Ninguém, nem mesmo o presidente da FPF, pode sobrepor-se à nossa democracia.
Entre outra das ideias, encontramos o reforço das revistas de segurança sobre todos os adeptos. A nossa pergunta é muito direta: mais ainda? Depois de várias denúncias por adeptos nacionais e estrangeiros face às revistas realizadas em Portugal, reconhecidas como abusivas por diversas instituições, o que virá a seguir? Despir o adepto de alto a baixo e expô-lo em praça pública? Convidamos todo o governo, sobretudo quem tutela o desporto, a inteirar-se dos vários relatórios internacionais e testemunhos fidedignos que dão conta das práticas de prevenção de riscos que ultrapassam o razoável e roçam a ilegalidade. Se queremos afirmar-nos como palco de grandes eventos desportivos, então talvez fosse a hora de começar por garantir toda a dignidade a quem vive as bancadas e quem faz todo um ecossistema ganhar sentido.
Ainda na longa lista debitada pela FPF, encontramos a “criação de mecanismos de identificação de adeptos pelas forças de segurança”. Todo o aparelho montado em grande parte dos recintos desportivos, assim como os dispositivos usados pela polícia como parte do seu trabalho, não chegam? Será o caminho proposto para ser sustentado em dados biométricos e armazenados sob duvidosas circunstâncias? Ficaremos atentos, mas uma coisa continua a escapar-nos apesar de todo o nosso zelo: de onde vem a justificação para a criação de mais mecanismos se o RAViD tem evidenciado uma descida significativa dos episódios de violência no desporto? Após tanto tempo a suportarem-se nos dados providenciados pelo aparelho estatal, todo este trabalho, agora que as estatísticas contrariam a narrativa desenhada, já não é tido em conta?
Por fim, reiteramos o que desde sempre partilhámos com todos: estaremos incondicionalmente ao lado dos adeptos e trabalharemos arduamente para proteger os seus direitos – sem estarmos presos a dogmas ou a relatórios, porque vivemos a realidade das nossas bancadas todas as semanas. É essa a nossa base de trabalho; era daí que desejávamos partir para realizarmos um trabalho sério e de compromisso com as instituições interessadas. É pena que alguns não queiram sair dos escritórios para vir arregaçar as mangas connosco. Agora, mais do que nunca, exigimos transparência, seriedade intelectual e bom senso aos dirigentes do nosso desporto e aos nossos governantes!
A APDA